Haitianos conseguem emprego em
confeitaria de chef francês nos Jardins
Chef elogia
pontualidade e dedicação dos novos contratados.
Grande sonho dos imigrantes é trazer a família para
o Brasil.
(Letícia Macedo Do G1 São Paulo)
Foto: G1
Macaron, mil
folhas, quiches, éclair, creme de confeiteiro e tortas de chocolate passaram a
fazer parte do cotidiano de três haitianos que chegaram no mês de maio em São Paulo. Depois da longa e sofrida viagem até o Brasil,
eles conseguiram um trabalho em uma padaria nos Jardins, bairro nobre de São
Paulo. Falar francês foi um diferencial na hora da seleção.
O chef Fabrice Le
Nud, que é francês e se naturalizou brasileiro, estava com dificuldades para
encontrar auxiliares de confeiteiro para a unidade da Pâtisserie Douce France,
na Alameda Jaú.
“A confeitaria é muito rigorosa exige muita
disciplina. Tanto que muitos sabem cozinhar mas poucos são confeiteiros. A mão
de obra brasileira não quer se atrelar ao trabalho e ao aprendizado a longo
prazo. Eu comparo a confeitaria a tocar piano ou à ginastica artística. Tem que
ter amor ao processo de treinamento. E eu não estava encontrando um jovem
motivado a quem pudesse ensinar meus conhecimentos”, relata.
Ele decidiu, então, enviar sua mulher, que é
brasileira e fala muito bem francês, à Igreja Nossa Senhora da Paz, no
Glicério, paróquia no Centro de São Paulo que virou referência para os
haitianos recém-chegados que estão em busca de
emprego. Com o
intermédio da Missão Paz, que orienta os empregadores e os candidatos a um
posto de trabalho, só nos primeiros seis meses desse ano 850 imigrantes foram
contratados.
Lesli Gabriel,
de 37 anos, que chegou doente à capital paulista, recebeu o chamado do padre
Paolo Parise para participar do processo seletivo. “Dias depois da minha
chegada a São Paulo, o padre falou que tinha vagas na pâtisserie e pediu para
eu convidar outros colegas. Eu chamei o Josué, que veio comigo do Haiti, e o
François, que a gente encontrou no Acre. E
deu certo. Agora eu tenho dois pais em São Paulo: o padre Paolo e o meu
patrão”, disse. Os três chegaram a ingressar em universidades.
O
empresário elogia a dedicação e o comprometimento de novos empregados. “Até
agora não atrasaram e nem trouxeram atestado médico”, afirmou. O patrão diz que
a contratação não foi motivada por comoção provocada pelo terremoto de 2010,
que deixou 316 mil mortos e comprometeu seriamente a infraestrutura do Haiti.
“Eu não os vejo
como vítimas [do terremoto] mas como imigrantes motivados pela situação
econômica do Haiti. Meu trabalho social eu faço fora daqui. Aqui eles gozam do
mesmo respeito e das mesmas condições de trabalho de um brasileiro. Eu não
enxergo neles mão de obra barata e dócil. Aqui a integração é a palavra-chave.
Trabalhamos lado a lado. Por ser imigrante, eu não faço diferença”, contou.
Falar
francês foi no caso deles um diferencial para conseguir uma vaga de trabalho
rapidamente na opinião do chef. “Conversamos em francês, mas digo para eles
aprenderem o português lá no curso que acontece na paróquia. Eu já estou
aprendendo algumas expressões em criolo [língua falada no Haiti].”
Fabrice
diz estimular que os haitianos não trabalhem sempre juntos. “Eu quero que eles
se integrem e aprendam o trabalho. O Josué se especializou em rechear as
bombinhas e fazer doces. Mais forte, François se especializou em fazer o creme
de confeiteiro [que exige vigor para ser batido] e ainda é encarregado dos
salgados, quiches, folhados, vol au vent. O Gabriel faz os macarons e descasca
as frutas para fazer os sorvetes.”
O
chef motiva os jovens aprendizes a se dedicarem a nova profissão. “Eles são
otimistas. Eu digo para eles que ter uma profissão fixa e estável vai ajudá-los
a melhorar de vida. Eu mesmo viajei para África, Ásia e para as Américas, além
da Europa”, observou.
Eles
ainda não receberam o primeiro salário e continuam dormindo na Casa do
Migrante, mantida pela Missão Paz. Eles pretendem alugar uma casa para morar
juntos enquanto guardam dinheiro para enviar para a família. "O padre nos
orientou a dar comida para eles e não o dinheiro. Se não, eles guardam o
dinheiro e ficam sem comer", contou o chef.
Escapou do terremoto
Gabriel
trabalhava em um escritório contábil em Porto Príncipe até 12 de janeiro de
2010 quando o terremoto de magnitude 7 destruiu a cidade. “Eu saí do escritório
uns 30 minutos antes do tremor. O prédio ficou complemente destruído. O meu
patrão ainda estava lá, foi soterrado e morreu”, contou.
Além
de 316 mil mortos, cerca de 1,5 milhão de pessoas ficaram desabrigadas no país
e as ruas ficaram repletas de destroços de edificações desmoronadas. Depois do
abalo, Gabriel se lançou em busca de uma nova fonte de renda. “Eu fiquei como
um nômade. Passamos necessidades. Está impossível de viver lá”, conta.
“Minha
ideia é ficar no Brasil. Se eu tiver dinheiro, eu quero trazer minha mulher e
meu filho. Também queria trazer minha mãe. Não consigo viver longe da minha
mãe”, conta.
Trazer a família
Josué
Valère, também de 37 anos, deixou dois filhos, de 6 e de 1 ano, no Haiti. Ele
trabalhava em um banco. A cidade de onde ele veio Cap. Haïtien não foi atingida
pelo tremor, mas o impacto econômico tornou a situação insustentável. “Eu perdi
o trabalho no banco. Como não achava outro, eu peguei dinheiro emprestado com
uma prima que mora em Miami para pagar a viagem”, lembra.
Apesar
dos contratempos e do medo de ser roubado durante a viagem, ele se diz
contente. “O Brasil abriu as portas para que eu viva mais à vontade. Eu não
quero escolher emprego. Eu quero trabalhar duro para trazer minha família para
cá”, afirma.
Caderninho
Cheime François, de 28 anos, vem de Ville des Gogaïves. Sem condições de
financiar os estudos ele deixou a universidade onde fazia o curso de ciências
contábeis. A mãe e um tio financiaram as passagens. “Eu não recorri aos
coiotes, vim sozinho”, contou. Apesar das dificuldades, ele considera ter sido
bem acolhido ao chegar ao Brasil. “Quando a gente chega as pessoas nos dão boas
vindas e oferecem café, leite”, afirma.
Pouco falante, François tem se especializado no creme de confeiteiro e
aos salgados, como quiche, vol au vent ou croque monsieur. “Eu comprei um
caderninho e estou anotando as receitas. Quero aprender tudo direitinho”, conta
o segredo para o seu bom desempenho. “Ele tem talento para a confeitaria”,
observa Fabrice.
Prefeitura de São Paulo para que o transporte dos haitianos fosse
suspenso. A medida foi tomada para que a administração municipal paulista
pudesse organizar a acolhida dos haitianos, que entram no país pela cidade da
Basileia, no Acre. Em junho, a vinda de ônibus pagos pelo governo federal foi
retomada e a previsão é que a capital paulista receba cerca de 900 haitianos.
Desde 2013, sem
recursos ou amigos que pudessem acolher os recém-chegados, centenas dormiram de
maneira improvisada no salão da igreja no Glicério. O abrigo improvisado foi
desativado recentemente após a abertura de centros de acolhimento da
Prefeitura. Um deles fica na região da estação Armênia, na Zona Norte, e tem
capacidade para 40 pessoas. O outro, na Penha, tem capacidade para acolher 80
pessoas e é dedicado exclusivamente a mulheres e crianças.
Em
junho, o outro avanço foi o início da emissão de carteiras de trabalho pela
Prefeitura de São Paulo. Antes dessa mudança, apenas a Superintendência do Ministério
do Trabalho emitia o documento, o que obrigava os estrangeiros a esperar até 50
dias para conseguir a carteira de trabalho. A administração municipal não
divulgou a estatística de documentos emitidos.
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